sábado, 23 de maio de 2009

Módulo 3 - Teoria dramatúrgica (Referecial teórico - Texto 2)

LIFE AS THEATER - 22 de maio
(Dennis Brisset e Charles Edgley)


O Princípio Dramatúrgico


A definição mais objetiva de Dramaturgia é “o estudo de como os seres humanos constroem significados em suas vidas”. Seu foco está em “conectar a ação ao seu sentido, e não o comportamento aos seus determinantes”. O significado, no sentido dramatúrgico, emerge de um consenso comportamental entre os seres humanos. É uma conseqüência (não um antecedente) de pelo menos duas pessoas comportando-se da mesma maneira, ou de maneira similar. O significado tem dois elementos básicos: por um lado, é um resultado comportamental da atividade humana (o resultado do que as pessoas fazem); por outro lado, é a característica principal do que tem sido chamado de “ato social”.

O interesse da Dramaturgia é com os atos sociais e os significados emergentes. O que é crucial para a visão dramatúrgica da vida social é que o significado não é um legado de arranjos culturais, de socialização ou institucionais, nem a realização de potenciais psicológicos ou biológicos. O significado é uma contínua e problemática construção da interação humana, que é repleta de mudanças, novidades e ambigüidades. (Pg. 02)

A Dramaturgia enfatiza a dimensão expressiva / impressiva da atividade humana. O Princípio fundamental da Dramaturgia é o de que os significados das ações das pessoas devem ser encontrados na maneira como elas se expressam nas interações com outros que também se expressam. (...) De fato, as situações não se definem por si, elas precisam ser construídas por comunicação simbólica. Portanto, a vida social deve ser expressiva.

A ubiqüidade desta expressividade reforça a visão de que o comportamento humano é dramático. O que é marcante no ser humano é a sua capacidade de engajar-se em atividades expressivas. Os humanos e suas ações não são vistos como o produto de forças (sejam sociais, culturais, psicológicas ou espirituais); os humanos, pelas suas expressividades, podem negociar seus sentidos nas situações com outros, que também possuem a mesma habilidade. (Pg. 03)

A Consciência Dramatúrgica

O Princípio dramatúrgico é uma coisa, a consciência deste Princípio por um determinado indivíduo é outra coisa. Certamente, com o decorrer dos eventos ordinários da vida cotidiana, os seres humanos podem tornar-se não apenas expressivos, mas conscientes desta expressividade. A consciência deste Princípio pode ser usada para organizar as experiências do indivíduo, comunicar-se de maneira mais efetiva com as outras pessoas, manipular ou enganar os outros, ou ainda para uma apresentação mais favorável. (Pg. 05)

A consciência dramatúrgica é variável. (...) Algumas vezes as pessoas preocupam-se bastante com o que os outros pensam, e às vezes não dão a mínima importância a isto. Por alguma razão, alguns dos outros são mais importantes para o ator. Ao mesmo tempo, algumas audiências são bastante receptivas, outras são mais críticas e desafiadoras. Parece que o nível de consciência por parte do ator, de si mesmo e de suas ações, é estabelecido em grande medida pelo grau de envolvimento com a audiência, e também pelo grau de receptividade desta audiência. (Pg. 06)

A relação entre o Princípio dramatúrgico e a consciência dramatúrgica

Quando se considera a questão da consciência na Dramaturgia, para muitos autores, a imagem dramatúrgica do homem é de alguém que está constantemente empregando esta consciência para influenciar as impressões que os outros podem ter. (Pg. 06)

Entretanto, se por um lado, algumas pessoas, em alguns momentos, tentam manipular as impressões dos outros, isto não é necessariamente uma conseqüência da consciência dramatúrgica. Este controle que o individuo tenta exercer sobre os outros pode ser negociável e até conciliatório. Nem todas as apresentações são forjadas, e as pessoas podem estar mais interessadas em revelar do que em esconder. Jogos de trapaças, cinismo e deslealdade são todos elementos dramatúrgicos, certamente, mas amor, verdade, sinceridade e autenticidade também são. (Pg. 07)

O problema básico da Psicologia Social e a resolução dramatúrgica

O problema básico da psicologia social, a tensão entre o eu e a sociedade, foi sempre levado em consideração na relação entre os aspectos individualizantes e os aspectos socializantes da natureza humana. A psicologia social dramatúrgica, com a sua ênfase na dimensão impressiva / expressiva do comportamento humano, parece ser a perspectiva que evita de maneira mais consistente as implicações polarizadas, e que melhor incorpora tantos os aspectos individuais quanto os sociais na sua versão do comportamento humano. (Pg. 10)

A visão dramatúrgica coloca simplesmente que a vida humana é simultaneamente individualizante e socializante, na medida em que as pessoas e as realidades que elas constroem têm conseqüências expressivas. Ser uma criatura individual ou social não é uma escolha que nós temos. Para ter uma identidade, precisamos nos unir a uns e nos separarmos de outros, entrar e sair de relações sociais, ao mesmo tempo. (Pg. 10)

O Drama do Self

O diferencial da perspectiva dramatúrgica emerge na análise da individualidade humana. A Dramaturgia foca no sentido de individualidade que as pessoas adquirem pela interação com os outros, trata-se de um fenômeno compartilhado e interativo. Esta é uma ruptura radical com a maioria das visões do Self. Tem sido tradicional na literatura da psicologia social empregar dois conceitos na discussão da natureza da individualidade: personalidade e Self. A Dramaturgia prefere o conceito de Self.

Tende-se a acreditar que a personalidade de um indivíduo é soma de todas as suas experiências e de tudo aquilo que ele pode chamar de seu. Nesta visão, a personalidade de um indivíduo seria uma propriedade que é carregada de situação em situação, uma entidade psicológica que independe da interação com os outros. A concepção dramatúrgica é diferente, e vê a individualidade como um fenômeno social e não psicológico. (Pg. 14)

A Dramaturgia insiste que “sem a apresentação do Eu, um Eu não é possível”. Isso significa que a individualidade é um fenômeno interativo compartilhado, que emerge somente no contato com os outros. Assim, o Self de um indivíduo emerge, é mantido e é perdido somente por um processo de validação consensual. O Self tem um caráter social, e não é uma propriedade pessoal, é concedido pelas pessoas com quem o individuo deseja compartilhar. (Pg. 15)

A natureza performática e mutante do Self

Sempre que o ser humano interage, Self’s são criados e compartilhados. Como outros significados, eles surgem, são sustentados por um período, e depois podem tornar-se irrelevantes diante de novas possibilidades. Dada a dimensão expressiva dos humanos, os Selfs não podem ser simplesmente descolados da interação. O Self emerge no decorrer da performance com outros. Significado é gerado, quer o ator queira, quer não. Além disso, na medida em que a pessoa adquire um Self no processo de atuação nos vários dramas da vida, com outros que estão fazendo a mesma coisa, este Self muda com o tempo. (Pg. 18)

De fato, nenhuma performance, independentemente do quão eficiente ela seja, dura pra sempre. E mesmo que o indivíduo tente fazer a performance durar para sempre, a visão da audiência muda, e assim muda também o sentido da performance. O Self é um objeto que precisa de outros objetos para vir a ser. Se os objetos mudam, muda também o Self. Ter mais de um Self é uma necessidade performática. Por outro lado, na maioria das situações, para além da mudança, um sentido de continuidade deve ser estabelecido. (Pg. 18)

Críticas à Dramaturgia

Dramaturgia como uma forma de investigação não-sistemática e frágil

A primeira critica é a de que a Dramaturgia não é uma teoria adequada do comportamento humano. Pois ela não possui as propriedades da teoria formal. Não está ligada a outras teorias, não produz hipóteses testáveis. Em suma, não é uma teoria. (Pg. 23)

Entretanto, a Dramaturgia é o estudo de ordem interacional, e a interação interpessoal não é apenas mais uma especialidade, é todo o material empírico real que existe para a sociologia. Ao invés de ser antagônica à psicologia e à sociologia, a Dramaturgia é o estudo de como a psicologia de um indivíduo é realizada, e de como a sociedade e a cultura de um indivíduo são vividas. Se há um problema com o modo de pensar dramatúrgico, ele pode estar na tolerância para virtualmente qualquer persuasão teórica ou material empírico. (Pg. 24)

Outra crítica constante à Dramaturgia é a de que ela não produz afirmações universais sobre o comportamento humano. Os críticos apontam para um viés cultural ou até situacional do pensamento dramatúrgico, que serviria para o comportamento verificado na cultura ocidental. Assim, a generalização da teoria seria possível apenas para certos contextos, e não aplicável a outras culturas, tempos ou lugares. (Pg. 24)

Entretanto, não é verdadeiro que a Dramaturgia está vinculada a uma cultura específica. O Princípio dramatúrgico de que as ações das pessoas são expressivas parece estar amplamente documentado na literatura antropológica. (Pg. 25)

Há ainda críticas à metodologia dramatúrgica. (Pg. 25)

Trivialização de arranjos estruturais, organizacionais e institucionais

A Dramaturgia tem sido acusada de subestimar o impacto de unidades sociais maiores, como as instituições, sobre o comportamento humano.

Mas, na verdade, a Dramaturgia reconhece que a estrutura social proporciona o contexto e as oportunidades para a interação entre pessoas. (...) Entretanto, ao invés de duelar com estas limitações estruturais, a Dramaturgia foca no que as pessoas fazem nos contextos que estão disponíveis para elas. Não foca nos porquês das existências destes contextos, mas nas possibilidades interacionais que surgem nestes contextos. É nas ações das pessoas que as características estruturais da vida social emergem, tornam-se reconhecidas e são utilizadas. (Pg. 27)

A vida não é realmente um teatro

A crítica predominante à Dramaturgia resulta de uma confusão com a própria metáfora teatral. Muitos críticos entendem a metáfora literalmente e depois a invalidam, insistindo que a vida cotidiana é diferente de um teatro, e portanto o imaginário e a linguagem teatrais não podem descrever adequadamente ou explicar o comportamento humano.

Apesar de haver claras diferenças entre o dia a dia e o mundo dos palcos, a própria consciência dos atores do palco não é necessariamente diferente da consciência de alguns atores do cotidiano. Assim como o palco é uma delimitação de tempo e de personagem, muitos episódios rotineiros também são. São os rituais dramáticos e expressivos da vida, sejam eles teatrais ou não, que constituem o foco da Dramaturgia. A vida não é nem igual ao teatro, nem diferente do teatro, é parecida com o teatro. A Dramaturgia é a descrição do comportamento de seres humanos que usam meios teatrais para construir um mundo, o qual, em muitos aspectos, é levado tão a sério, que jamais seria comparado a um “teatro”. (Pg. 31)

O Legado de Goffman

A aparência é real.

Nós podemos aprender muito sobre um livro, pela sua capa. Fazemos isto todos os dias. A aparência nunca é destruída pela realidade, apenas substituída por outras aparências. Como foi colocado por Mead, “a vida social é vivida majoritariamente na imaginação”. Goffman reforça que “as imaginações que as pessoas têm umas sobre as outras são os sólidos fatos da sociedade”. O argumento de Goffman dissolve a própria distinção entre a mera aparência e a realidade fundamental na vida social. Para o autor, a vida consiste em vários níveis de compreensão e consciência, e não em camadas que escondem uma essência fundamental, que deve ser revelada por um trabalho científico. (Pg. 37)

domingo, 17 de maio de 2009

Módulo 3 - Teoria dramatúrgica (Referecial teórico)

A representação do eu na vida cotidiana - Erving Goffman
The Presentation of Self in Everyday Life, publicação de 1959 e considerada a obra clássica de Goffman, o autor propõem, em linhas gerais, que os indivíduos desenvolvem uma vida próximo aos dramas encenados em um palco de teatro. Assim, a vida social pode ser entendida como um conjunto de representações em que os indivíduos em contato (face a face) constroem os sentidos de sua existência diariamente e constantemente. The Presentation of Self in Everyday Life surgiu primeiramente como uma versão de sua dissertação, que seria um estudo de campo em uma comunidade das Ilhas Shetland, um pequeno assentamento rural na costa escocesa.
A vida, para Goffman, consiste de vários níveis de compreensão e consciência. Desta forma, O teatro de performances não está na cabeça das pessoas, está em seus atos públicos. Para entender a obra de Goffman alguns conceitos são fundamentais, a saber:
Estereotipia e Cenário:

“Se o indivíduo lhes for desconhecido, os observadores podem obter, a partir de sua conduta e aparência, indicações que lhes permitam utilizar a experiência anterior que tenham tido com indivíduos aproximadamente parecidos com este que está diante deles ou, o que é mais importante, aplicar-lhes estereótipos não comprovados.”
Comunicação verbal e não verbal:

“A primeira abrange os símbolos verbais, ou seus substitutos, que ele usa propositadamente e tão só para veicular a informação que ele e os outros sabem estar ligada a esses símbolos. Esta é a comunicação no sentido tradicional e estrito. A segunda inclui uma ampla gama de ações, que os outros podem considerar sintomáticas do ator, deduzindo-se que a ação foi levada a efeito por outras razões diferentes da informação assim transmitida.”
Atuação:

“Assim, quando uma pessoa chega à presença de outra, existe, em geral, alguma razão que a leva a atuar de forma a transmitir a elas a impressão que lhe interessa transmitir. Às vezes, agirá de maneira completamente calculada, expressando-se de determinada forma somente para dar aos outros o tipo de impressão que irá provavelmente levá-lo a uma resposta específica que lhe interessa obter.”

“Outras vezes, o indivíduo estará agindo calculadamente, mas terá, em termos relativos, pouca consciência de estar procedendo assim.”

“Ocasionalmente, expressar-se-á intencionalmente e conscientemente de determinada forma, mas, principalmente, porque a tradição de seu grupo ou posição social requer este tipo de expressão, e não por causa de qualquer resposta particular.”
Papel social:

“...podemos dizer que um papel social envolverá um ou mais movimentos, e que cada um destes pode ser representado pelo ator numa série de oportunidades para o mesmo tipo de público ou para um público formado pelas mesmas pessoas.”
Sociedade:

“A sociedade está organizada tendo por base o princípio de que qualquer individuo que possua certas características sociais tem o direito moral de esperar que os outros o valorizem e o tratem de maneira adequada.”“Conseqüentemente, quando um indivíduo projeta uma definição da situação e com isso pretende, implícita ou explicitamente, ser uma pessoa de determinado tipo, automaticamente exerce uma exigência moral sobre os outros, obrigando-os a valorizá-lo e a tratá-lo de acordo com o que as pessoas de seu tipo têm o direito de esperar.”
A interação face a face:

“...a interação pode ser definida, em linhas gerais, como a influência recíproca dos indivíduos sobre as ações uns dos outros, quando em presença física imediata.”
“Uma interação pode ser definida como toda interação que ocorre em qualquer ocasião, quando, num conjunto de indivíduos, uns se encontram na presença imediata de outros.”
Fachada:

“Será conveniente denominar de fachada à parte do desempenho do indivíduo que funciona regularmente de forma geral e fixa com o fim de definir a situação para os que observam a representação.”

“Fachada, portando, é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconsciente empregado pelo indivíduo durante sua representação.”
Cenário:

“O cenário tende a permanecer na mesma posição, geograficamente falando, de modo que aqueles que usem determinado cenário como parte de sua representação não possam começar a atuação até que se tenham colocado no lugar adequado e devam terminar a representação ao deixá-lo.”

“Somente em circunstâncias excepcionais o cenário acompanha os atores. Vemos isto num enterro, numa parada cívica e nos cortejos irreais com que se fazem reis e rainhas.”
Idealização:“A noção de que uma representação apresenta uma concepção idealizada da situação é, sem dúvida, muito comum.”

“Assim, quando o indivíduo se apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo.”
Platéia:

“Graças à segregação do auditório o indivíduo garante que aqueles diante dos quais desempenha um de seus papeis não serão as mesmas pessoas para as quais representará um outro papel num ambiente diferente.”

“...os atores tendem a alimentar a impressão de que o atual desempenho de sua rotina e seu relacionamento com a platéia habitual têm um caráter especial e único. A natureza rotineira da representação é escondida (o próprio ator não percebe até que ponto sua representação é realmente rotineira) e os aspectos espontâneos da situação são reforçados.”
Conclusão:

“”Quando o indivíduo passa a uma nova posição na sociedade e consegue um novo papel a desempenhar, provavelmente não será informado, com todos os detalhes, sobre o modo como deverá se conduzir, nem os fatos de nova situação o pressionarão suficientemente desde o início para determinar-lhe a conduta, sem que tenha posteriormente de refletir sobre ela.”

“Comumente, receberá apenas algumas deixas, insinuações e instruções cênicas, pois se pressupõe que tenha em seu repertório uma grande quantidade de pontas de representação que serão exigidas no ambiente.”

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Interação social e novas mídias: elementos para uma análise da interação mediada

Por Hermílio Santos 



Considerações Iniciais

           A Exposição Mundial 2000 (Expo 2000) em Hannover, Alemanha, teve como tema “Seres humanos, natureza e tecnologia”. Os pavilhões temáticos e dos países foram organizados com o objetivo de explorar o tema, tentando apresentar o estado da arte, bem como identificar algumas características futuras da vida humana.

Pelo menos dois aspectos comuns puderam ser identificados na maioria dos pavilhões: a estrutura dos pavilhões e, relacionado a isso, a maneira como as mensagens eram transmitidas.

Com pouquíssimas exceções, a maioria dos pavilhões estava estruturada de forma a que os visitantes não pudessem escolher qual caminho eles gostariam de seguir: uma entrada e uma saída estavam claramente demarcadas. Ninguém tinha a per missão de quebrar esta estrutura, porque assim era a maneira como os indivíduos deveriam receber a “mensagem” do pavilhão.

Uma outra característica comum a muitos pavilhões da Expo 2000 era o uso de mídias eletrônicas como suporte para as mensagens. Vídeos eram responsáveis por transmitir as mensagens para um grande público. A postura individual não raramente era de passividade diante de imagens coloridas, e, possivelmente, talvez fosse essa a postura esperada.

O tipo de mídia era, de alguma forma, coerente com a organização física dos pavilhões. Assim como os pavilhões, as mídias selecionadas permitiam unicamente uma comunicação de mão única, com muito pouco espaço para aquilo que denominamos interatividade.

 

Objetivos do Artigo

Ilustrar como ocorre grande parte da comunicação no mundo contemporâneo, apesar da existência de meios de comunicação mais interativos.

A questão, portanto, não é tanto quanto à escolha da tecnologia “correta”, mas muito mais de atitude em relação à interação social.

 

Questões a serem confrontadas

  • De que forma as novas mídias são encaradas como parte da interação humana?
  • Quais as conseqüências de interfaces interativas para a interação social?
  • E, finalmente, de que forma as mídias são capazes de reforçar a habilidade dos indivíduos de interagirem socialmente?

 

Problemas levantados

Mesmo que tais instrumentos passem a ser utilizados com maior freqüência, suas possibilidades e limitações para a interação dificilmente podem ser concebidas sem levar em consideração a interação face a face, apesar das nuanças que marcam cada forma interativa.

Pensar a interação tendo como ponto de partida máquinas e tecnologias, sem levar em conta os sujeitos que verdadeiramente interagem

 

Hipótese

Será investigada a hipótese de as mídias eletrônicas fornecerem novos elementos para a interação social e que, por esta razão, caberia investigar quais seriam precisamente esses fatores a influenciar a interação e sua relação com eventuais transformações no processo interativo.

Mais precisamente, nossa discussão procurará investigar se, e de que forma, as novas mídias representam um instrumento capaz de otimizar a interação social, tornando a comunicação mais ágil e flexível, mas acima de tudo preservando a singularidade da comunicação daqueles envolvidos no processo de interação mediada.

 

Em torno da interação social

Herbert Blumer identifica duas formas de interação social, a chamada “interação não-simbólica” e a outra precisamente “interação simbólica” (Blumer, 1969:8).

A interação não-simbólica ocorre quando se reage diretamente à ação de um outro sem que se interprete tal ação; por exemplo através de reflexos do corpo.

Ao contrário, a interação simbólica implica interpretação dos atos. Este segundo tipo de interação é bastante mais complexo e constitui o fundamento para a abordagem do interacionismo simbólico.

O interacionismo simbólico está fundado em três premissas (Blumer, 1969:2-5).

A primeira delas é que seres humanos  agem em relação ao mundo baseados no sentido de elementos tais como objetos físicos (árvore ou cadeira), outras pessoas (mãe ou mo to ris ta de táxi), categorias de seres humanos (amigos e inimigos), instituições (escola ou governo), ideais (in de pendência individual e honestidade) e as sim por diante.

A segunda é de que a resposta do interacionismo simbólico é que o sentido é produzido através do processo de interação social.

Um sistema social é caracterizado pela interação do ego (I) com o alter (me), mutuamente orientados. A complementaridade ou reciprocidade é possível em razão das condições prévias da existência de uma comunicação através de um “sistema comum de símbolos” ou “cultura comum” (Parsons, 1962).

De acordo com Mead (1972), o ego é a resposta, incerta, que um indivíduo dá às atitudes de outros em relação a ele quando este assume uma atitude em relação aos outros.

O alter é o grupo organizado de atitudes das respostas dos outros que o indivíduo assume enquanto suas. A fusão de ambos, ego e alter, articula a constituição do self, o sujeito de ações em um sistema social.

Neste sentido, o assumir papéis é um processo fundamental na constituição do self, e marcado por três fases: a) a fase preparatória, a fase da repetição; b) a fase do brincar (play), na qual o indivíduo aprende como assumir papéis e c) a fase do jogo (game), quando o indivíduo é confrontado com o outro generalizado, ou seja, quando o indivíduo atua de acordo com as expectativas das ações dos outros que tomam parte no jogo.

A terceira premissa sustenta que os sentidos são manipulados e modificados por um processo interpretativo adotado pela pessoa em relação aos elementos com os quais a pessoa entra em contato.

O processo interpretativo compreende duas fases distintas:

1ª) A pessoa que age estabelece a si mesma os elementos com os quais tem relação, isto é, a pessoa deve especificar os elementos que gozam de sentido.

2ª) A pós o processo de auto-comunicação, a interpretação implica uma manipulação de sentidos, na qual o agente seleciona, reagrupa e transforma os sentidos de acordo com o ponto de vista da situação na qual ele está confrontado e que está relacionado com suas ações.

 

Em torno da interação mediada

O autor inicia enfatizando os conceitos de Thompson:

 

A interação face-a-face acontece num contexto que o autor denomina co-presença, isto é, os interagentes estão presentes e partilham um mesmo sistema referencial de espaço e tempo. Outra característica desta modalidade é a multiplicidade de deixas simbólicas para transmitir mensagens e também interpretar as que cada um recebe do outro.

Interação quase mediada é aquela realiza da através dos meios de comunicação de massa (livros, jornais, rádio, televisão, etc.).

Interações mediadas “implicam o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas, etc.) que possibilita a transmissão de  informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo, ou em ambos”

 

Características interativas

Interação face-a-face

Interação mediada

Quase-interação mediada

Espaço-tempo

Contexto de co-presença; sistema referencial espaço-temporal comum

Separação dos contextos; disponibilidade estendida no tempo e no espaço

Separação dos contextos; disponibilidade estendida no tempo e no espaço

Presenças simbólicas

Multiplicidade simbólica

Limitação simbólica

Limitação simbólica

Orientação /  característica

Orientada para receptores específicos / Dialógica

Orientada para receptores específicos / Dialógica

Orientada para número indefinido de receptores / Monológica

 

As tecnologias não trazem já embutidas nelas as novas formas de comportamento, sendo estas o desdobramento incessante e dinâmico da interação tanto dos indivíduos com as tecnologias e máquinas quanto da interação entre os próprios indivíduos mediada pelas tecnologias.

Com isso se quer apenas salientar o fato de que não apenas as tecnologias são historicamente distintas, provocando reações e combinações diferentes de comportamento, mas que são igualmente diversos os contextos socioculturais em que tecnologias similares são introduzidas, o que tende a suscitar novas e diferenciadas formas de interação social, de acordo com o meio ambiente.

Uma outra importante questão suscitada pelo uso intensivo de mídias interativas é precisamente o processo de formação da identidade dos envolvidos na interação mediada, encarada como um elemento fundamental também na constituição das comunidades virtuais.

O cuidado com sua própria identidade, sua própria reputação, é um importante elemento na formação de qualquer comunidade, já que exerce entre outras funções o papel de elemento motivador ao pertencimento à determinada comunidade (Donath, 2000: 29-31).

 

Conclusões do autor

Primeiro, parece imprescindível a elaboração de uma análise mais consistente da interação social mediada por novas mídias interativas, teórica e empiricamente mais fundamentada, para que aqueles envolvidos no processo de interação mediada, assim como aqueles que propiciam tal mediação, estejam mais aptos a superar parte desses impasses.

Em segundo lugar, é preciso decifrar as condições de possibilidade para a existência da interação social no ciberespaço. Ademais, o estabelecimento dessas condições nos permitirá identificar empiricamente os elementos comuns e divergentes entre a interação quase-mediada e interação mediada .

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Interacionismo simbólico - usos e limites de sua aplicabilidade nos contextos sociais virtuais/digitais

Beyond the diluted community concept: a symbolic interactionist perspective on online social relations (24/04)

Autor: Jan Fernback

O autor inicia suas reflexões salientando que o estudo ‘agarra-se’ com o conceito de comunidade no ciberespaço e vislumbra sugerir formas alternativas de caracterizar as relações sociais online. Baseado em entrevistas e uma reflexão teórica da comunidade online, ele considera que a metáfora da "comunidade" no ciberespaço é uma união de conveniência, sem real responsabilidade.
Este estudo sugere uma abordagem ‘interacionista simbólica’ para o exame das relações sociais que está livre de controvérsia e bagagem estrutural-funcional do termo "comunidade". O autor sugere que a comunidade é um processo evolutivo, e este compromisso é verdadeiramente o desejado ‘ideal social’ na interação social, quer seja online ou offline.
Fernback salienta que desde o final do século 19, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e profetas culturais têm mantido a busca da questão social da comunidade no discurso popular. Este discurso verifica a natureza da comunidade e seu valor na cultura pública.
Para o autor, o dinamismo é o foco deste artigo, que analisa o conceito de comunidade no ciberespaço e sugere formas alternativas de caracterizar as relações sociais online a fim de evitar que os caprichos da "comunidade". A idéia de cibercomunidade (comunidades virtuais) é incontornável – ‘deixar para trás os nossos corpos, e nossos preconceitos e limitações associadas a essas entidades, para interagir apenas como mentes em um ambiente livre’. Este estudo portanto, analisará alguns pressupostos teóricos sobre a comunidade, contextualizando o conceito de ‘cybercommunity’ ou também apresentado como cibercomunidade, e algumas conclusões a partir de dados coletados a partir de entrevistas com os participantes de fóruns online, bem como sugerir outras conceituações de interação social online como um meio de progressos paradigmáticos em relação a narrativa sobre cibercomunidade.
No tópico ‘o que os estudo sobre comunidades online revelam’, Fernback expõe o pensamento de alguns autores destacando que estudos prévios das comunidades online incidem sobre as possibilidades de territorialização - a Internet como um novo espaço social. Entre os autores, ele destaca:
- Benedikt (1991) afirma que o espaço virtual é materialmente análogo ao espaço físico em que tem propriedades físicas e geográficas.
- Rheingold (1993) afirma que comunidades virtuais realizam a solidificação de funções tradicionais da comunidade pré-industrial.
- Baym (1995) encontra em linha com os grupos' ricamente desenvolvido culturas "a transformar a Internet em um novo espaço comunal.
- Whittle (1997) o verdadeiro poder das comunidades virtuais cabe dentro da nossa capacidade de criar e desenvolver as comunidades, não apenas para escolhê-las.
- Miller (1996) concorda, argumentando que, apesar de avanços nas tecnologias da comunicação serem muitas vezes culpado pela destruição da comunidade, tecnologias online podem ser usadas para restaurar e reforçar o impulso da humanidade de criar e sustentar comunidades.
- Jones (1995) observa que qualquer definição de comunidade online deve englobar elementos espaciais e sociais. Assim, Jones apóia uma concepção robusta de comunidade que conecta matéria / espaço com a transmissão de valores sociais e sistemas de crença.

Globalmente, em nações desenvolvidas, os novos meios possuem um grande papel nestas transformações. Mas o corpo de investigação sobre a comunidade online não tem feito o suficiente para problematizar sobre comunidade: O homem tem uma necessidade intrínseca de forma associativa de grupos? Como pode ser uma associação comunal disfuncional? Comunidade tem sido ‘essencializadas’ e teorizadas na medida em que tornam-se quase sem sentido? A próxima seção considera hipóteses sobre a comunidade em novas mídias estudos, afirma o autor.
Na seção ‘Questões da comunidade na era digital’, o autor faz referências a autores bastante conhecidos como Castells e Jankowski entre outros, salientando como tais autores percebem o termo comunidade. Em seguida, ressalta que os estudos sobre comunidades online estão inevitavelmente ligados ao desenvolvimento da Internet entre outros fenômenos culturais. Deste modo, uma crítica da natureza das comunidades assume maior importância cultural. Afirma ainda que a distinção entre o "real" e o "virtual" tornou-se muito menos útil como a internet e está firmemente enraizada no dia a dia da existência cultural.
Em seguida, debate sobre o termo ‘glocalização’. De acordo com Pew, ‘glocalização’ é evidente no ciberespaço - as pessoas estão expandindo seus planos sociais, e ao mesmo tempo, vinculam-se mais profundamente às suas comunidades locais. Originalmente usado como um termo comercialização no Japão, o termo 'glocalização’ tem em sua raiz o desejo de normalizar o ‘reino do global’ para o familiar ‘terreno do local’ (Robertson, 1992). Apropriado por Wellman (2002), o termo significa que todos os aspectos da esfera social têm se deslocado do tradicional conceito de comunidade homogênea para redes ‘glocalizadas’ (onde famílias estão conectadas globalmente e localmente através de redes ligadas) e mais em direção às 'redes individuais’, em que os indivíduos tornam-se associados e desatentos à fronteira espacial. Deste modo, a ‘glocalização’ é o resultado de uma forte conexão local com interações de amplo alcance global.
Fernback ressalta que o estudo aqui apresentado é orientado por um quadro ‘simbólico-interacionista’ para investigar a natureza das relações sociais formadas nos grupos na rede. Este paradigma, afirma o autor, fornece um valioso instrumento para a compreensão de como as representações simbólicas das comunidades online em influenciam as noções dos participantes sobre interações comunais. Destaca ainda os estudos de Blumer e suas premissas.
Para compreender os sentidos de "comunidade em rede” para os participantes nos espaços sociais virtuais, 30 pessoas com experiência grupos online foram entrevistados em profundidade. O objetivo das entrevistas foi o de documentar a experiência de interação social online para que os participantes compreendam como se caracteriza a natureza dessas interações. Para investigar os significados que estas pessoas provêm de sua interação online em grupos, uma abordagem qualitativa alicerçada numa perspectiva interacionista simbólica foi empregada (segundo Blumer, 1969). Para avaliar a percepção das realidades da interação social online, os membros dessas comunidades devem ser questionados para determinar a relevância deste tipo de atividade social em suas vidas. Estratégias interpretativas recolhidas principalmente a partir de estudos antropológicos foram aplicadas para elucidar conclusões.
Os indivíduos foram convidados a partir de grupos online escolhidos aleatoriamente. Os grupos tratavam dos seguintes temas: filosofia oriental, filosofia política, pós-graduação em ciências humanas, política, saúde geral, e questões homossexuais. Após participar destes grupos por um período de seis meses, o autor solicitou, via e-mail, respostas a um questionário aberto por tempo indeterminado. Alguns entrevistados concordaram em ser entrevistadas offline, em pessoa.
As questões da entrevista foram organizadas em quatro seções: (1) informações sobre o uso de grupos online; (2) Em que medida os indivíduos consideram suas interações sociais virtuais como sendo cibercomunidade; (3) Quais sentidos são recolhidos por eles a partir de interação em comunidades virtuais, e (4) temas como experiências online e offline foram integrados.
Fernback constata que o mais importante achado deste estudo é que os participantes de grupos online possuem entendimentos incongruentes do personagem em rede que realiza relações sociais. As suas opiniões sobre a natureza das interações comunais online estão enraizadas em significados que se constroem sobre o valor da comunidade e das suas interações com os outros, em suas esferas sociais online e offline. Dois temas identificáveis emergiram das entrevistas, conforme relatado nas seguintes seções:
Comunicação online e vida pública: quando questionados sobre a caracterização de sua interação social online e sobre a descrição do impacto da interação nos grupos online (se houver) na vida pública, a maioria dos inquiridos demonstrou atitudes ambivalentes sobre suas experiências sociais online.
O significado de atividade online como estereótipo: quando questionados sobre a descrição "dos seus sentimentos e opiniões sobre o fenômeno da interação de grupos online" e sobre a equiparação da "qualidade de suas experiências sociais offline e online", a maioria dos inquiridos atribuiu uma efêmera qualidade para os seus relacionamentos comunais online. Alguns, no entanto, consideraram a interação social online e offline como ‘indistinguíveis’.
A partir desses dois parâmetros, o autor discute alguns pontos. Para ele, noções tradicionais da comunidade não são verdadeiramente manifestadas no ciberespaço para estes participantes. Eles questionam se a comunidades virtuais têm o suficiente para verdadeiramente desenvolver costumes, lendas folclóricas, legados e orgulho nestes espaços. Mesmo a comunicação íntima online ainda está sendo mediada pelo computador pelo fato de que os comunicadores têm mais probabilidade de conhecerem estranhos. Tanto a alegria como a opressão dessa intimidade mediada por computador são temperados pela falta de contato humano. A metáfora da comunidade virtual colocada sobre as relações sociais é insuficiente e inadequada.
Mas essa metáfora é uma união de conveniência, sem verdadeira responsabilidade, afirma Fernback. Muitos entrevistados citaram a ‘opressividade’ como uma preocupação em suas comunidades virtuais, e um inquirido ressalta que se sentiu tão sufocado pelo seu grupo, que ele finalmente o deixou. Elementos de continuidade e sustentação da interação tendem a ser raras em grupos online. Com base nestas preocupações, poderá suspeitar de que um cidadão de cibercomunidade não iria tolerar alguns comportamentos como o banimento.
A partir dos resultados, o autor aponta algumas ‘alternativas para a construção de comunidades virtuais’. Segundo Fernback, o conceito de comunidade como uma ‘panacéia social’ tem sido enfraquecido. Como uma instituição, a comunidade não tem limites ou verificações; é eternamente procurada e persistentemente incentivada.
Para ele, o que é útil no estudo das relações sociais online inclui as abordagens diferenciadas e multifacetadas de estudiosos descarregadas pelo rótulo de comunidade. Análise de redes é útil para a compreensão de como os usuários de redes de computadores forjam relações individuais que são propositais e de menor carga de valor.
Outro ponto abordado pelo autor é que as comunidades nem sempre são formadas concisamente por consenso ou intimidade. Trata-se de compreender que os indivíduos estão unidos por uma necessidade para perpetuar a sociedade e a cultura. Isso obriga os seres humanos a precisarem trabalhar em conjunto e se comunicarem em um processo contínuo de manutenção social ou mudança social. Este processo nem sempre é eficiente ou palpável, que pode ser caótica e possuir oposição.
Em suas conclusões, destaca que Robins (1999) sugere que a própria comunidade virtual é uma visão socialmente regressiva da ‘tecnocultura’ desejando um mundo que não existe. Ele argumenta contra a "obsessiva" caracterização da distância geográfica como tirânica. Robins implica que a comunidade online oferece uma visão anti-social e anti-política do mundo.
Considerando o potencial opressivo da comunidade, para além do seu potencial de estabilização social, Fernback afirma que temos de avançar para além da nostalgia da comunidade ideal. Para ele, a academia deve pensar em ir além da comunidade como um produto ou um fim em si próprio. Temos de pensar em ir além da comunidade como uma estratégia de marketing online. Temos de avançar para além da metáfora da comunidade online como o paradigma de relações sociais. Em última análise, este estudo sugere uma abordagem simbólico-interacionista para o exame das relações sociais online que está livre da controvérsia e de bagagem estrutural-funcional. De acordo com esta perspectiva, a comunidade é uma construção mutável, determinada pelos atores sociais que criam significado nisso. Esta abordagem reconheceria que as estruturas sociais em rede são influenciadas pelas relações institucionais, o poder, o nacionalismo, informação mundial e dos fluxos de capitais, crise de estratégias de gestão e de outros processos que constroem as nossas práticas "comunais".
Para o autor, se os estudiosos continuarem a pintar a internet com o ‘pincel largo’ da comunidade, eles diluirão o potencial da investigação para compreender como comunidades online são constituídas, como elas funcionam, como elas são integradas na vida social offline, ou o que elas fornecem. Ultrapassar a comunidade como um paradigma de estudos online equivale a avançar para além dos efeitos dos estudos de comunicação de massa. É um reconhecimento do rico resultado do passado e futuro, bem como um compromisso para outras avenidas frutuosas de pesquisas deste fenômeno social.


The cyberself: the self-ing project goes online, symbolic interaction in the digital age (24/04)
Autor: Laura Robinson

Neste artigo, Laura Robinson inicia suas ponderações destacando no tópico ‘Muito antes de comunicação mediada por computador (CMC), interação simbólica’, que embora o ‘eu’ seja consagrado, não é delimitado mas constantemente renegociado. No entanto, tal como as perspectivas interacionistas simbólicas tentaram derrubar conceitos do ‘eu’ estático delimitado como um todo, perspectivas pós-modernas ameaçaram a concepção de interação simbólica para um ‘eu’ maior, criado e mantido através da interação.
A autora examina estes dois quadros concorrentes à luz das definições dos ‘cyberself’ online e o processo de auto-construção. Ela acredita que na criação de ‘eus’ online, os usuários não procuram transcender os aspectos mais fundamentais dos seus ‘eus’ offline. Em vez disso, os usuários colocarão na essência dos corpos, personas, e personalidades enquadradas de acordo com as mesmas categorias que existem no mundo offline.
Para Robinson, o quadro do interacionismo simbólico é fundamental para a compreensão do processo de construção do ‘cyberself’ porque o ‘cyberself’ é formado e negociado da mesma forma que o ‘eu’ offline. Online, o 'eu' e o 'mim' ainda informar-se mutuamente, ainda que em um suporte diferente, utilizando diferentes expressões "fixado" e "fixado desligado" (Mead, 1934; Goffman, 1959). Por último, estas interações digitais continuam a exigir uma análise Goffmaniana para compreender a interação tanto 'no palco' como ' nos bastidores'.
Assim sendo, a autora faz um panorama do conceito de interacionismo simbólico, e destaca, embasando-se em Holstein e Gubrium (2000) e, que ao afirmar que o self é empírico, o interacionismo simbólico contesta a popular idéia de que existe o self delimitado fora da interação social como um todo, que é distintivo e fixado em contraste com outros.
Também destaca os pressupostos de Cooley e sua noção ‘looking-glass’ (auto-espelho) que define a auto-reflexão como a gerada pelo ‘outro generalizado’, que é conjugada com o acórdão do ‘outro generalizado’. Em outras palavras, o nosso senso de self é realmente a nossa percepção da avaliação da sociedade sobre nós. Neste processo, através da imaginação que nós percebemos em outro pensamento da mente algumas das nossos aparências, maneiras, objetivos, ações, natureza, amigos, e assim por diante, e que são afetados por ela várias vezes.
O conceito de looking-glass baseia-se num triplo processo. Em primeiro lugar, o self imagina como ele aparece para os outros. Em segundo lugar, o self então imagina a sentença dos outros. Finalmente, o self desenvolve uma resposta emocional a esse julgamento.
Por sua vez, Mead (1934) vê o self como o produto deste processo em que "uma não resposta que ele dirige ao outro e, quando a sua própria resposta se torna uma parte de sua conduta, onde não só ele se ouve, mas responde a si próprio”. Portanto, para Mead, o "eu" é a representação da ordem social ou do "outro generalizado".
Goffman ainda transforma os conceitos de Mead e Cooley em sua prorrogada metáfora do self em dramaturgia. Goffman estuda o self através de atividade mundana 'para descobrir o processo de auto-construção que ele descreve como uma produção dramática’. Nos estudos dramatúrgicos de Goffman, o self gera os seus empreendimentos interacionais estrategicamente e os realiza de uma forma calculada para projetar uma imagem que os outros interagentes encontrarão credibilidade. Em suas performances, o self se esforça para transmitir uma identidade consistente com as expectativas formadas pelo público e com a situação, ou estágio, que enquadra a interação.
No tópico ‘construindo o ciberself: o projeto da constituição do ‘eu’ online’, a autora traz alguns conceitos e pensamentos que irão reforçar seus argumentos e fazer alguns links das teorias anteriores com o ciberespaço. Assim sendo, inicia com os pressupostos de Hill. O autor em questão examina a ‘promotional-hype’ ou segundo seu texto, ‘promoção de ambientes virtuais’, que prevê que os espaços virtuais o self não pode discriminar entre outros reais e o self são projeções exteriorizadas.
Complementando, Turkle fala a a partir dos resultados de suas pesquisas sobre usuários de MUDs, que os ‘múltiplos selfs’ liberta das obrigações corpóreas que engendram o mundo offline, tanto que esses ‘multiplos selfs’ podem estar simultaneamente presentes em numerosos espaços virtuais. Para Turkle (1997), no ciberespaço tem-se a oportunidade de expressar os vários e talvez desconhecidos aspectos da personalidade, através dos MUDs (Multi-User Dungeons). Turkle (1997), pondera ainda que, no mundo mediado pelos computadores, o eu é múltiplo, fluido e consubstanciado nas interações com a rede de máquinas. Para ela, “o computador situa-se na linha de fronteira. É uma mente, mas não é bem uma mente. É inanimado, porém interativo. Não pensa, mas não é alheio ao pensamento. [...] o computador transporta-nos para além do nosso mundo de sonhos e animais e permite-nos contemplar uma vida mental que existe na ausência de corpos (TURKLE, 1997, p. 31)”. Baseado em entrevistas com usuários dos MUD (MUDders), Turkle considera que a construção do cyberself oferece uma "ardósia fresca ' para MUDders online criarem novas identidades.
Robinson observa ao final do tópico que como tecnologias de saturação, ambientes online deixam a seleção do self para o usuário. A partir de uma perspectiva pós-moderna, essas tecnologias apresentam a oportunidade de auto-contrução para um self efêmero, sem compromisso com uma ‘masterself’ (self mestre) que abriga um 'eu' ou um 'mim'.
A partir daí, Robinson se envereda nas discussões do tópico ‘representação e a criação de ciberpersonas’ e enfatiza ainda mais a questão dos MUDs e citando Wertheim, aponta que os MUDders saciam suas fantasias sem temer as repercussões que iriam acontecer no mundo offline, porque o comportamento e expressão aceitáveis no ambiente MUD supera a distância do mundo offline. Nas entrevistas com usuários de MUD, Turkle salienta que muitos jogadores MUD testemunham a realidade de seus selfs virtuais e descrevem os selfs online como sendo "mais reais" do que os que possuem no mundo offline.
No tópico ‘reconstituição do cibercorpo’, Robinson destaca que em MUDS, quando os usuários descrevem os seus corpos virtuais, eles muitas vezes exageram os próprios marcadores de gênero, raça, e a juventude que lhes falta no mundo da fisicalidade corpórea (Chen, 1998). Personagens masculinos são construídos como corpos musculosos, enquanto os personagens femininos são descritas como brandas, e tais cibercorpos tendem sempre a aparecer, seja o masculino ou feminino, para um grau exagerado (Clark, 1995). A simulação da ‘corporalidade’ do corpo indica que os criadores de corpos virtuais desejam preservar o corpo de alguma forma, para não transcenderem à ele (O'Brien, 1999).
Em seguida, cita Wertheim, apontando que a autora critica a perspectiva pós-moderna de cyberself, afirmando que independentemente do seu valor real, não é simplesmente uma experiência de mudança de identidade. Posso jogar com qualquer número de personalidades online sem sofrer fragmentação dos meus 'arquivados' selfs. 'Eu' - isto é, o meu 'eu' - pode jogar qualquer número de diferentes pessoas online e offline, mas isso não significa que se tornam fragmentados. Portanto, argumenta Wertheim, ambientes online não oferecem opções do indivíduo ausentar-se do mundo offline.
A autora finaliza este tópico enfatizando que em termos Goffmanianos, as pessoas dão múltiplas performances para diferentes públicos, pois ao invés de libertar-nos das nossas identidades sociais offline, o ciberespaço proporciona condições para codificá-las.
Já em ‘a ilusória tentação de abordagens pós-modernas’, a autora afirma que que a maior falha fundamental nas interpretações pós-modernas de construção do cyberself reside na tentativa de generalizar a partir de estudos iniciais de MUDS, a construção de cyberself em geral. Outra ponderação sobre as generalizações neste sentido, reside no fato de que interpretações pós-modernas de construção do cyberself já não são válidas, e não podem ser aplicadas à população da internet em geral porque são baseadas precocemente nos usuários que investidos de MUDS. Hoje, a população de usuários é muito diferente, e já não é mais dominada pela cor branca, e pelo sexo masculino.
As identidades online são suscetíveis de serem extensões de identidades offline porque "para a maioria das pessoas, o aumento da utilização internet, amplia e complementa o que eles fazem offline" (Rainie, 2004). Assim, finaliza Robinson, a percepção do usuário na Internet como alguém separado e alienado da sociedade atual' já não é credível.
Quando inicia suas reflexões sobre ‘interacionismo simbólico e construção do cyberself’, Robinson destaca que dada a mudança de populações de usuários e tipos de atividades na Internet, para a maioria dos usuários on-line, self é uma extensão do ‘masterself’ offline. Com isto em mente, a autora regressa ao interacionismo simbólico novamente para explicar auto-construção online e sinalização de identidades.
O cyberself é o emergente produto da interação social em que o self comanda a capacidade de ser tanto o sujeito quanto o objeto de interação. Desta forma, a construção do cyberself cria o par virtual ‘eu / mim'. Online, a página inicial permite que o 'eu' apresente o self ao ‘ciberoutro’; na verdade, a própria construção da homepage pressupõe a expectativa do virtual "outro generalizado".

Estes links movem usuários entre interações textuais e espaços de construção identitária. Em outros fóruns, como as discussões políticas de grupos, os usuários empregam links ou referências à homepages profissionais para dar credibilidade às suas próprias afirmações. Nestes aspectos, a homepage continua a ser uma expressão do 'eu', que antecipa a reação do ‘ciberoutro’, criando, assim, o 'mim'.
Além disso, nos weblogs ou blogs, bem como diários on-line, espaços virtuais ampliam a concepção da página inicial como espaço interacional. Blogs permitem a mesma apresentação do 'eu' como fazem as homepages, mas eles esperam também os outros para interagir com o 'eu', no mesmo espaço virtual. O blogueiro apresenta o 'eu' através de construção de páginas e mantêm um diálogo com os outros ‘eus’ pelas reações e comentários nos posts.
A partir daí, a autora se envereda na discussão sobre a temática ‘sinalizando a identidade no mundo mediado por computador’. Destaca então que na interação social face-a-face, os indivíduos empenham-se uns com os outros por meio de qualquer das suas modalidades sensoriais. No entanto, na rede, não há sinais interacionais físicos como tal. Atualmente, a maior parte da comunicação mediada por computador ocorre através de intercâmbios com base em texto. Usuários online empregam texto para enviar e receber sinais que mimetizam as estruturas das expressões "given" e "given off" no mundo offline.
Robinson exemplifica que o e-mail fornece ambas as expressões "given" e "given off”. Por exemplo, em um fórum empresarial, um usuário pode postar o seu ‘cargo’ como uma expressão "given". No entanto, se o usuário não usa o email da instituição com o nome, este pode não enviar a expressão adequada "given off”. Ao usar um e-mail associado à identidade institucional reivindicada pela expressão "given", a expressão "given off” iguala e valida a expressão "given". E-mail de uma conta gratuita, como o Yahoo, pode sinalizar a possibilidade de engano de identidade, porque não existe nenhuma prova de filiação ou de identidade offline. Em suma, o 'given' diz respeito às suas ações voluntárias que apontam suas características e o 'given off' são as demais formas de expressão e outros, que deixam transparecer sua identidade ou seu estado, sem necessariamente ser algo voluntário.
Em seguida, a autora retorna à Goffman ressaltando que em termos de interação cibernética, podemos chamar seu argumento de metáfora da dramaturgia. Para Goffman, cada vez que um usuário posta em um fórum ou chat, ele realiza uma performance. Goffman define um desempenho como ‘toda a atividade de uma pessoa, que ocorre durante um período marcado pela sua presença contínua antes de um conjunto particular de observadores’. Para ser bem sucedido, o desempenho é ‘moldado e modificado para se ajustar ao entendimento e às expectativas da sociedade em que é apresentado’. Além disso, o ator opta por 'renunciar ou dissimular a ação que é incompatível com estas normas’.
Para Halbert, para que os usuários mantenham com sucesso os seus membros em uma comunidade, que deve realizar auto-identidades que não violem o contexto da interação da comunidade, que pode ser lido através dos nomes na tela, biografia dos membros, introduções e os contextos em que se realizam conversas.
Às vezes, performances falham. Isto é especialmente verdadeiro quando ‘não associados’, às vezes chamado ‘trolls’, tentam usar esses sinais para imitar os hábitos linguísticos dos membros reais. A ciberaudiencia é rápida para sinalizar a tensão durante a sinalização de identidades corretas e identidades enganosas. Porque dissimulando ciberperformances, podemos falsificar assinaturas em rede sem gastar muito tempo ou esforço, e a maioria dos membros não irá invocá-los como indicadores confiáveis de identidade. Em vez disso, o público inspeciona linguagem e vocabulário tal como expressões "given off”.
A autora também ressaltam a sinalização textual bem como as expressões como "LOL" que sintetizam as características físicas em texto. Em mensagens instantâneas (IM) e e-mail, os emoctions oferecem uma infinidade de símbolos que, como o "LOL", reduzem sinais visuais interacionais em um ícone visual embutido no texto.
A autora finaliza suas ponderações apontando que os estudos que vislumbram identidade e interação social na internet ainda focam públicos específicos (do gênero masculino, e que a partir dos MUDs buscam no mundo online, satisfazer seus ‘eus’ que de algum modo não são satisfatórios no mundo offline. Porém, lembra que esses usuários já não constituem a maioria da população na internet. Assim, destaca Robinson, no ciberespaço perpetua a mesma auto-construção interativa que existe no mundo offline.

sábado, 18 de abril de 2009

Symbolic Interactionism - Perspective and Method - Por Herbert Blumer

Capítulo I - The Methodological Position of Symbolic Interactionism

O primeiro capítulo do livro de Herbert Blumer se ocupa em esclarecer tanto no que consiste a proposta metodológica do Interacionismo Simbólico quanto em mostrar que há uma compleição metodológica por trás da proposta teórica. O autor inicia o texto apontando várias similaridades entre o trabalho de vários autores, entre eles William James, John Dewey e George Herbert Mead, o qual, segundo Blumer, foi o mais eficiente na delimitação das idéias que estruturam o Interacionismo Simbólico. O artigo se estrutura, então, em primeiro mostrar as características da teoria, depois as posições e princípios metodológicos que guiam a corrente de pensamento.
O autor identifica três premissas básicas na qual age o Interacionismo Simbólico: (i) a de que os seres humanos agem para com as coisas de acordo com os significados que elas têm para eles. Essas ‘coisas’ podem ser efetivamente tudo que um ser humano pode notar em seu mundo – estruturas físicas, outros seres humanos, categorias de pessoas, instituições e encontros no dia-a-dia. A premissa seguinte é a de que (ii) tal significado deriva da interação social estabelecida entre as pessoas. Por fim, a de que esses (iii) significados são lidados com e modificados através de um processo interpretativo utilizado pela pessoa que está lidando com as ‘coisas’ que ela encontra. Tal perspectiva era, na época em que o texto foi publicado, contrária à maioria da literatura que concerne ao tema – para a qual o significado era uma coisa pré-definida e então deixada de lado com desimportante – ou somente uma ligação neutra entre os fatores responsáveis pelo comportamento humano e esse comportamento como sendo produto de tais fatores.
O autor faz uma harmonização entre conceitos da psicologia e da sociologia através da teoria apresentada, apresentando o modo pelo qual as duas disciplinas lidam com fatores comuns às interações sociais, de onde cada campo apenas aderiria a explicações independentes umas das outras para explicar o comportamento humano. Para Blumer, duas correntes teóricas dividem a posição sobre o problema: a (i) primeira que afirma que as ‘coisas’ possuem significados intrínsecos, sendo uma parte natural de sua composição; e a segunda (ii) que o significado é simplesmente a expressão de elementos psicológicos que entram em contato com a percepção da coisa – o que limitaria o processo de produção de sentido porque estaria sujeito apenas aos elementos existentes no momento do contato. O autor afirma que o Interacionismo Simbólico vê o significado como proveniente de outra fonte – ele surgiria da interação de outras pessoas com relação àquela coisa – os significados seriam produtos sociais como criações formadas através da interação das pessoas. Essa perspectiva contemplaria a existência de um processo de interpretação pelo qual se daria o sentido de forma muito mais dinâmica. Esse processo de interpretação ocorreria conforme dois passos: no primeiro o ator indicaria para si mesmo as coisas com as quais ele desejaria interagir, e no segundo, em conseqüência desse processo de comunicação consigo mesmo, a interpretação se localizaria como sendo um processo de lidar com significados. O processo de interpretação, para Blumer, seria formativo.
Blumer aponta a existência de um número de idéias básicas – imagens raiz – que se refeririam e transpareceriam as naturezas dos seguintes tópicos: grupos humanos, ou sociedades, interação social, objetos, o ser humano como ator, a ação humana e a interconexão entre essas linhas de ação.
Ele explica cada ponto de forma detalhada:
- Natureza da Sociedade Humana: se referiria ao fato de os grupos de pessoas serem considerados indivíduos que estão sempre entrando em co-ação. Para Blumer, grupos de pessoas ou sociedades só existem ‘em ação’. Dessa ação, resultariam tanto a cultura (derivada das coisas que as pessoas fazem quanto a estrutura social (relativa aos relacionamentos derivados de como as pessoas agem com relação umas às outras.
- Natureza da Interação Social: uma sociedade é composta por indivíduos interagindo entre si. As atividades de um membro ocorreriam em resposta – ou em relação – às atividades de outro. Blumer aponta que a Interação Social é uma interação entre atores – e não entre fatores associados a esses atores. A diferença com relação à abordagem do Interacionismo Simbólico é que ele reconhece a interação social como que forma o comportamento humano, ao invés de ser apenas um veículo para tal. Mead identifica, aqui, duas formas de interação social: uma não-simbólica (conversação de gestos), associada a movimentos reflexivos; e outra simbólica (o uso de símbolos significantes), associada a uma característica interpretativa, a um processo de formação de sentido. Mead vê uma carga grande de significado na idéia de apresentação de gestos, porque a interpretação de um gesto percorre as três dimensões da natureza do significado – o gesto significa algo pra quem o produz, algo para quem o vê/recebe e a ação conjunta, a articulação entre as duas ações.
- Natureza dos Objetos: para o IS, os mundos nos quais os seres humanos podem existir são compostos de objetos – objetos esses que são os produtos da interação simbólica. Os objetos podem ser: (a) físicos; (b) sociais e (c) abstratos. A natureza de um objeto depende estritamente de quem interage com ele. Objetos não possuem status sólidos – eles variam com as indicações e definições que as pessoas fazem sobre eles.
- O Ser Humano como Organismo Ator: o ser humano é visto como um organismo que não responde somente aos outros no nível não-simbólico – ele faz indicações e interpreta o que os outros comunicam. Um ponto importante aqui é a objetivação do ser. Como outros objetos, o objeto ‘self’ emerge do processo de interação social com as outras pessoas, na tentativa de diferenciação. Tais objetos ‘self’ seriam formados pelo processo de assunção de papéis – numa exteriorização de nossa consciência – projeção de nós mesmos, visão de nós mesmos, num processo de auto-interação (que seria proveniente dessa característica).
- Natureza da Ação Humana: A natureza da ação humana é reconhecer que a atividade dos seres humanos consiste em lidar com um fluxo de situações com as quais precisamos interagir – e tal interação é composta pela base interpretativa e sua relação com o que a pessoa percebe.
- Interligação de Ações: Talvez o mais complexo dos pontos discutidos por Mead, a interligação entre ações humanas consiste em organizações sociais de produção de diferentes atos de diversos participantes. Tais ações às vezes geram padrões – que existem de forma preponderante e recorrente em sociedades já estabelecidas. Blumer faz dois comentários distintos com relação ao presente esquema: o primeiro dizendo respeito ao fato de que a expressão das formas pré-estabelecidas de ações conjuntas não dita a extensão da vida em sociedade; e o segundo afirmando que precisamos reconhecer que mesmo no caso de ações conjuntas pré-estabelecidas e repetitivas, cada instância da ação conjunta precisa ser formada de forma inédita. Tais ações sempre estão relacionadas a ações prévias de seus participantes (numa lógica de intertexto).
Blumer, então, começa sua incursão pela problemática relativa à metodologia relacionada ao interacionismo simbólico. Para o autor, o interacionismo simbólico constitui uma abordagem científica empírica que precisa de um mundo empírico existente – que serve de como lugar de observação, estudo e análise. Ele determina, nesse ponto, que o conceito de realidade está absolutamente concatenado à existência desse mundo, no que se refere ao trabalho empírico, e só pode ser procurado e verificado quando em contato para com o mundo. Para o autor, a ciência empírica busca resolver seus problemas deslocando imagens do mundo empírico sob estudo e testando-as através do extenso escrutínio da problemática do mundo empírico. Tal afirmação leva ao fato de que a metodologia se refere, ou guia, os princípios que sobrescrevem o processo de estudo do caráter não-corruptível do mundo empírico.
Para o autor, uma metodologia funciona da seguinte forma: ela (1) abraça o problema científico inteiramente – e não somente uma pequena parcela dele; (2) cada parte desse problema, assim como ato científico completo, precisam se encaixar no mundo empírico, de modo que tais métodos possam ser testados e finalmente (3) o mundo empírico sob estudo – e não um modelo qualquer de questionamento científico – precisa prover as respostas decisivas para o teste.
Para isso, o pesquisador precisa de: (a) um esquema do mundo empírico sob estudo; (b) ter dúvidas sobre o mundo empírico estudado e converter tais dúvidas em problemas científicos; (c) Determinar os dados a serem procurados e os meios que podem ser empregados em consegui-los; (d) Determinar as relações entre os dados e por fim (e) Interpretar o que foi achado. Há ainda uma outra categoria que diz respeito a todo o processo, a idéia do (f) Uso de Conceitos – modos de categorização que são usados como guia para que dados vão ser coletados, procurados.
O autor critica duramente ainda os métodos quantitativos, principalmente de acordo com a quantificação de variáveis que, para ele, não podem ser quantificadas. Isso está explícito, em especial, na idéia dos procedimentos operacionais. Há ainda uma crítica quanto ao que é ensinado para os jovens pesquisadores – que apenas aderem a uma base protocolar de desenho de pesquisa, e que Blumer defende que não garante que o mundo empírico esteja sendo respeitado.
Blumer se debruça sobre a idéia de ‘testar uma hipótese’ como sendo uma das bases para estabelecer a base do trabalho empírico. Ele mostra que uma hipótese precisa (a) conter genuinamente o modelo do qual ela é deduzida e (b) ser testada e encontrar tanto casos positivos (que a confirmem), quanto casos negativos. O autor resume: “aderir a um protocolo científico e tentar replicar resultados testando hipóteses não garante a validação empírica genuína que as ciências sociais requerem”. O autor ainda traça uma crítica aos pesquisadores que se utilizam de tais protocolos operacionais para tentar explicar um mundo do qual eles não participam.
Finalmente, Blumer aponta dois caminhos metodológicos pelos quais os usuários da metodologia do Interacionismo Simbólico podem enveredar: o primeiro diz respeito à dinâmica da (1) Exploração, pela qual um estudioso pode encontrar tanto um relacionamento de compreensão daquela esfera social quanto desenvolver suas argüições para com o problema. A dinamicidade de alguns ambientes é especialmente vivida nessa dinâmica. A segunda dinâmica é a da (2) Inspeção, que consiste em examinar de forma intensiva o conteúdo empírico e de forma criativa abordar suas questões – o que Blumer sugere como indo na contramão do que é feito nas ciências psicossociais – tal método descende do método usado por Darwin em sua teoria da evolução das espécies.
O autor, ainda falando sobre metodologia, delineia os principais problemas que um cientista social usando o Interacionismo Simbólico pode encontrar: (1) transferir sua visão como sendo a visão do grupo estudado; (2) como as linhas de comportamento das pessoas são traçadas de acordo com os lugares onde elas vivem, há um problema sério de validade nas aproximações de grande escala – além de não se ter exatamente uma dimensão do aspecto social do referido grupo (geralmente se minimizando ou simplificando-o). (3) como as ações sociais são o campo central do estudo, elas precisam ser bem delineadas - e seu processo de desenvolvimento deve ser acompanhado na íntegra.
Por fim, na sua breve conclusão, o autor, imperativo, pede para que se tenha um maior respeito com questões de metodologia associadas ao Interacionismo Simbólico.

Capítulo II - Sociological Implications of the Thought of George Herbert Mead

O segundo capítulo reflete, como o título afirma, a visão de Blumer de acordo com o pensamento de Mead. O artigo se debruça sobre muitos temas que já foram vistos no capítulo anterior, contudo. O autor inicia combatendo a idéia de que os significados estão imbuídos no mundo ao redor, e que a consciência e as mentes dos seres humanos já viriam com uma pré-visualização da realidade. O autor então, envereda por analisar os 5 pontos que Mead aponta em seu trabalho e que foram de valor inestimável para construir o campo do Interacionismo Simbólico.
(1) O Self – Mead interpreta o homem como sendo um ator que pode tanto interagir com os outros quanto consigo mesmo – essa visão era extremamente diferenciada das abordagens psicossociais de seu tempo.
(2) A Ação – A ação é desenvolvida num processo dinâmico para com o mundo – ao invés de meramente ser uma estrutura psicológica previamente existente ativada por fatores incidentes àquela estrutura.
(3) Interação Social – Aqui a contribuição principal do autor foi fazer uma diferenciação entre Interação Simbólica e Não Simbólica – no que diz respeito à Interação Não-Símbólica, a idéia é a de que podemos interpretar gestos que são puramente reflexivos e nos comportar de acordo com isso, não contendo simbologia. A interação simbólica estaria permeada por símbolos, sendo, então, interpretada. Aqui tem-se que apontar que a produção de sentido é um processo formativo – diferente da insistência das ciências da psicologia em tratar tal interação somente como um fator externo, um meio neutro.
(4) Objetos – Qualquer coisa, eventualmente, num mundo empírico. Podem ser físicos, sociais ou abstratos. Sua natureza é construída com base em sua significação, em seu sentido – e sua significação depende de quem se refere a eles. Todos os objetos são produções sociais, de modo que eles assim são formados e assim são transformados pela interação social e seu processo de interpretação.
(5) Ações Conjuntas – São linhas de comportamento e interações entre os homens que coexistem no mesmo mundo – são o foco principal do estudo do interacionismo simbólico, por serem o mais fértil veículo para as transformações interpretativas causadas pelo processo de interação. Blumer aponta que a sociedade tem sua essência num eterno processo de interação, onde cada ação deve ser tratada como ação conjunta – e nunca separada. O autor ainda afirma que cada ação conjunta precisa ser vista como tendo uma história, um contexto, e que essa orientação histórica é, geralmente, ordinária, no sentido de que é desenvolvida e se torna recorrente nos participantes que tomam partido nela. Por fim, o autor adiciona um índice de imprevisibilidade, afirmando que mesmo que elas sejam ‘ordinárias’, no sentido citado, elas ainda podem estar abertas a muitas possibilidades e incerteza.
O autor encerra o capítulo afirmando que escolheu não se concentrar sobre todas as implicações sociológicas do trabalho de Mead, mas apenas aquelas que ele considera de maior fecundidade científica.

Symbolic Interactionism - Perspective and Method - Por Herbert Blumer

Capítulo I - The Methodological Position of Symbolic Interactionism

O primeiro capítulo do livro de Herbert Blumer se ocupa em esclarecer tanto no que consiste a proposta metodológica do Interacionismo Simbólico quanto em mostrar que há uma compleição metodológica por trás da proposta teórica. O autor inicia o texto apontando várias similaridades entre o trabalho de vários autores, entre eles William James, John Dewey e George Herbert Mead, o qual, segundo Blumer, foi o mais eficiente na delimitação das idéias que estruturam o Interacionismo Simbólico. O artigo se estrutura, então, em primeiro mostrar as características da teoria, depois as posições e princípios metodológicos que guiam a corrente de pensamento.

O autor identifica três premissas básicas na qual age o Interacionismo Simbólico: (i) a de que os seres humanos agem para com as coisas de acordo com os significados que elas têm para eles. Essas ‘coisas’ podem ser efetivamente tudo que um ser humano pode notar em seu mundo – estruturas físicas, outros seres humanos, categorias de pessoas, instituições e encontros no dia-a-dia. A premissa seguinte é a de que (ii) tal significado deriva da interação social estabelecida entre as pessoas. Por fim, a de que esses (iii) significados são lidados com e modificados através de um processo interpretativo utilizado pela pessoa que está lidando com as ‘coisas’ que ela encontra. Tal perspectiva era, na época em que o texto foi publicado, contrária à maioria da literatura que concerne ao tema – para a qual o significado era uma coisa pré-definida e então deixada de lado com desimportante – ou somente uma ligação neutra entre os fatores responsáveis pelo comportamento humano e esse comportamento como sendo produto de tais fatores.

O autor faz uma harmonização entre conceitos da psicologia e da sociologia através da teoria apresentada, apresentando o modo pelo qual as duas disciplinas lidam com fatores comuns às interações sociais, de onde cada campo apenas aderiria a explicações independentes umas das outras para explicar o comportamento humano. Para Blumer, duas correntes teóricas dividem a posição sobre o problema: a (i) primeira que afirma que as ‘coisas’ possuem significados intrínsecos, sendo uma parte natural de sua composição; e a segunda (ii) que o significado é simplesmente a expressão de elementos psicológicos que entram em contato com a percepção da coisa – o que limitaria o processo de produção de sentido porque estaria sujeito apenas aos elementos existentes no momento do contato. O autor afirma que o Interacionismo Simbólico vê o significado como proveniente de outra fonte – ele surgiria da interação de outras pessoas com relação àquela coisa – os significados seriam produtos sociais como criações formadas através da interação das pessoas. Essa perspectiva contemplaria a existência de um processo de interpretação pelo qual se daria o sentido de forma muito mais dinâmica. Esse processo de interpretação ocorreria conforme dois passos: no primeiro o ator indicaria para si mesmo as coisas com as quais ele desejaria interagir, e no segundo, em conseqüência desse processo de comunicação consigo mesmo, a interpretação se localizaria como sendo um processo de lidar com significados. O processo de interpretação, para Blumer, seria formativo.

Blumer aponta a existência de um número de idéias básicas – imagens raiz – que se refeririam e transpareceriam as naturezas dos seguintes tópicos: grupos humanos, ou sociedades, interação social, objetos, o ser humano como ator, a ação humana e a interconexão entre essas linhas de ação.

Ele explica cada ponto de forma detalhada:

- Natureza da Sociedade Humana: se referiria ao fato de os grupos de pessoas serem considerados indivíduos que estão sempre entrando em co-ação. Para Blumer, grupos de pessoas ou sociedades só existem ‘em ação’. Dessa ação, resultariam tanto a cultura (derivada das coisas que as pessoas fazem quanto a estrutura social (relativa aos relacionamentos derivados de como as pessoas agem com relação umas às outras.

- Natureza da Interação Social: uma sociedade é composta por indivíduos interagindo entre si. As atividades de um membro ocorreriam em resposta – ou em relação – às atividades de outro. Blumer aponta que a Interação Social é uma interação entre atores – e não entre fatores associados a esses atores. A diferença com relação à abordagem do Interacionismo Simbólico é que ele reconhece a interação social como que forma o comportamento humano, ao invés de ser apenas um veículo para tal. Mead identifica, aqui, duas formas de interação social: uma não-simbólica (conversação de gestos), associada a movimentos reflexivos; e outra simbólica (o uso de símbolos significantes), associada a uma característica interpretativa, a um processo de formação de sentido. Mead vê uma carga grande de significado na idéia de apresentação de gestos, porque a interpretação de um gesto percorre as três dimensões da natureza do significado – o gesto significa algo pra quem o produz, algo para quem o vê/recebe e a ação conjunta, a articulação entre as duas ações.

- Natureza dos Objetos: para o IS, os mundos nos quais os seres humanos podem existir são compostos de objetos – objetos esses que são os produtos da interação simbólica. Os objetos podem ser: (a) físicos; (b) sociais e (c) abstratos. A natureza de um objeto depende estritamente de quem interage com ele. Objetos não possuem status sólidos – eles variam com as indicações e definições que as pessoas fazem sobre eles.

- O Ser Humano como Organismo Ator: o ser humano é visto como um organismo que não responde somente aos outros no nível não-simbólico – ele faz indicações e interpreta o que os outros comunicam. Um ponto importante aqui é a objetivação do ser. Como outros objetos, o objeto ‘self’ emerge do processo de interação social com as outras pessoas, na tentativa de diferenciação. Tais objetos ‘self’ seriam formados pelo processo de assunção de papéis – numa exteriorização de nossa consciência – projeção de nós mesmos, visão de nós mesmos, num processo de auto-interação (que seria proveniente dessa característica).

- Natureza da Ação Humana: A natureza da ação humana é reconhecer que a atividade dos seres humanos consiste em lidar com um fluxo de situações com as quais precisamos interagir – e tal interação é composta pela base interpretativa e sua relação com o que a pessoa percebe.

- Interligação de Ações: Talvez o mais complexo dos pontos discutidos por Mead, a interligação entre ações humanas consiste em organizações sociais de produção de diferentes atos de diversos participantes. Tais ações às vezes geram padrões – que existem de forma preponderante e recorrente em sociedades já estabelecidas. Blumer faz dois comentários distintos com relação ao presente esquema: o primeiro dizendo respeito ao fato de que a expressão das formas pré-estabelecidas de ações conjuntas não dita a extensão da vida em sociedade; e o segundo afirmando que precisamos reconhecer que mesmo no caso de ações conjuntas pré-estabelecidas e repetitivas, cada instância da ação conjunta precisa ser formada de forma inédita. Tais ações sempre estão relacionadas a ações prévias de seus participantes (numa lógica de intertexto).

Blumer, então, começa sua incursão pela problemática relativa à metodologia relacionada ao interacionismo simbólico. Para o autor, o interacionismo simbólico constitui uma abordagem científica empírica que precisa de um mundo empírico existente – que serve de como lugar de observação, estudo e análise. Ele determina, nesse ponto, que o conceito de realidade está absolutamente concatenado à existência desse mundo, no que se refere ao trabalho empírico, e só pode ser procurado e verificado quando em contato para com o mundo. Para o autor, a ciência empírica busca resolver seus problemas deslocando imagens do mundo empírico sob estudo e testando-as através do extenso escrutínio da problemática do mundo empírico. Tal afirmação leva ao fato de que a metodologia se refere, ou guia, os princípios que sobrescrevem o processo de estudo do caráter não-corruptível do mundo empírico.

Para o autor, uma metodologia funciona da seguinte forma: ela (1) abraça o problema científico inteiramente – e não somente uma pequena parcela dele; (2) cada parte desse problema, assim como ato científico completo, precisam se encaixar no mundo empírico, de modo que tais métodos possam ser testados e finalmente (3) o mundo empírico sob estudo – e não um modelo qualquer de questionamento científico – precisa prover as respostas decisivas para o teste.

Para isso, o pesquisador precisa de: (a) um esquema do mundo empírico sob estudo; (b) ter dúvidas sobre o mundo empírico estudado e converter tais dúvidas em problemas científicos; (c) Determinar os dados a serem procurados e os meios que podem ser empregados em consegui-los; (d) Determinar as relações entre os dados e por fim (e) Interpretar o que foi achado. Há ainda uma outra categoria que diz respeito a todo o processo, a idéia do (f) Uso de Conceitos – modos de categorização que são usados como guia para que dados vão ser coletados, procurados.

O autor critica duramente ainda os métodos quantitativos, principalmente de acordo com a quantificação de variáveis que, para ele, não podem ser quantificadas. Isso está explícito, em especial, na idéia dos procedimentos operacionais. Há ainda uma crítica quanto ao que é ensinado para os jovens pesquisadores – que apenas aderem a uma base protocolar de desenho de pesquisa, e que Blumer defende que não garante que o mundo empírico esteja sendo respeitado.
Blumer se debruça sobre a idéia de ‘testar uma hipótese’ como sendo uma das bases para estabelecer a base do trabalho empírico. Ele mostra que uma hipótese precisa (a) conter genuinamente o modelo do qual ela é deduzida e (b) ser testada e encontrar tanto casos positivos (que a confirmem), quanto casos negativos. O autor resume: “aderir a um protocolo científico e tentar replicar resultados testando hipóteses não garante a validação empírica genuína que as ciências sociais requerem”. O autor ainda traça uma crítica aos pesquisadores que se utilizam de tais protocolos operacionais para tentar explicar um mundo do qual eles não participam.

Finalmente, Blumer aponta dois caminhos metodológicos pelos quais os usuários da metodologia do Interacionismo Simbólico podem enveredar: o primeiro diz respeito à dinâmica da (1) Exploração, pela qual um estudioso pode encontrar tanto um relacionamento de compreensão daquela esfera social quanto desenvolver suas argüições para com o problema. A dinamicidade de alguns ambientes é especialmente vivida nessa dinâmica. A segunda dinâmica é a da (2) Inspeção, que consiste em examinar de forma intensiva o conteúdo empírico e de forma criativa abordar suas questões – o que Blumer sugere como indo na contramão do que é feito nas ciências psicossociais – tal método descende do método usado por Darwin em sua teoria da evolução das espécies.

O autor, ainda falando sobre metodologia, delineia os principais problemas que um cientista social usando o Interacionismo Simbólico pode encontrar: (1) transferir sua visão como sendo a visão do grupo estudado; (2) como as linhas de comportamento das pessoas são traçadas de acordo com os lugares onde elas vivem, há um problema sério de validade nas aproximações de grande escala – além de não se ter exatamente uma dimensão do aspecto social do referido grupo (geralmente se minimizando ou simplificando-o). (3) como as ações sociais são o campo central do estudo, elas precisam ser bem delineadas - e seu processo de desenvolvimento deve ser acompanhado na íntegra.

Por fim, na sua breve conclusão, o autor, imperativo, pede para que se tenha um maior respeito com questões de metodologia associadas ao Interacionismo Simbólico.

Capítulo II - Sociological Implications of the Thought of George Herbert Mead

O segundo capítulo reflete, como o título afirma, a visão de Blumer de acordo com o pensamento de Mead. O artigo se debruça sobre muitos temas que já foram vistos no capítulo anterior, contudo. O autor inicia combatendo a idéia de que os significados estão imbuídos no mundo ao redor, e que a consciência e as mentes dos seres humanos já viriam com uma pré-visualização da realidade. O autor então, envereda por analisar os 5 pontos que Mead aponta em seu trabalho e que foram de valor inestimável para construir o campo do Interacionismo Simbólico.

(1) O Self – Mead interpreta o homem como sendo um ator que pode tanto interagir com os outros quanto consigo mesmo – essa visão era extremamente diferenciada das abordagens psicossociais de seu tempo.

(2) A Ação – A ação é desenvolvida num processo dinâmico para com o mundo – ao invés de meramente ser uma estrutura psicológica previamente existente ativada por fatores incidentes àquela estrutura.

(3) Interação Social – Aqui a contribuição principal do autor foi fazer uma diferenciação entre Interação Simbólica e Não Simbólica – no que diz respeito à Interação Não-Símbólica, a idéia é a de que podemos interpretar gestos que são puramente reflexivos e nos comportar de acordo com isso, não contendo simbologia. A interação simbólica estaria permeada por símbolos, sendo, então, interpretada. Aqui tem-se que apontar que a produção de sentido é um processo formativo – diferente da insistência das ciências da psicologia em tratar tal interação somente como um fator externo, um meio neutro.

(4) Objetos – Qualquer coisa, eventualmente, num mundo empírico. Podem ser físicos, sociais ou abstratos. Sua natureza é construída com base em sua significação, em seu sentido – e sua significação depende de quem se refere a eles. Todos os objetos são produções sociais, de modo que eles assim são formados e assim são transformados pela interação social e seu processo de interpretação.

(5) Ações Conjuntas – São linhas de comportamento e interações entre os homens que coexistem no mesmo mundo – são o foco principal do estudo do interacionismo simbólico, por serem o mais fértil veículo para as transformações interpretativas causadas pelo processo de interação. Blumer aponta que a sociedade tem sua essência num eterno processo de interação, onde cada ação deve ser tratada como ação conjunta – e nunca separada. O autor ainda afirma que cada ação conjunta precisa ser vista como tendo uma história, um contexto, e que essa orientação histórica é, geralmente, ordinária, no sentido de que é desenvolvida e se torna recorrente nos participantes que tomam partido nela. Por fim, o autor adiciona um índice de imprevisibilidade, afirmando que mesmo que elas sejam ‘ordinárias’, no sentido citado, elas ainda podem estar abertas a muitas possibilidades e incerteza.

O autor encerra o capítulo afirmando que escolheu não se concentrar sobre todas as implicações sociológicas do trabalho de Mead, mas apenas aquelas que ele considera de maior fecundidade científica.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Contexto contemporâneo: Comportamento Social e P2P

P2P e a evolução humana
(BAUWENS
)

Data de apresentação: 20/03/09
  • P2P: equipotência, relações dinâmicas, livre cooperação, autoridade aceita diante da experiência, produção de bem comum.
  • Implica em troca de comportamento e visões de mundo
  • Permite que qualquer um possa blogar/ter voz, como em chats, mensageiros instantaneos, telefone IP, etc.

P2P chave das tecnologias que suportam o atual sistema econômico, político e social
"Companies have used these technologies to integrate their processes with those of partners, suppliers, consumers, and each other, using a combination of intranets, extranets, and the public internet, and it has become the absolutely essential tool for international communication and business, and to enable the cooperative, internationally coordinated projects carried out by teams."


  • Emergência decorrente da descentralização e redundância
  • Visa eficiência e produtividade
  • Material produzido sendo apropriado por sistema de capital. Controle informacional.
  • A tecnologia reflete a nova forma de ser social e quebra limites de tempo e espaço.
  • Processos P2P sempre existiram mas só agora, devido a tecnologia, pode ter uma emergência massiva.

Contexto contemporâneo: Navegar no Ciberespaço

Navegar no ciberespaço
(SANTAELA)

Data de apresentação: 20/03/09
  • Interação: democrática, participação dos cidadão, conteúdo selecionável pelo usuário, bidirecionalidade. S: ação, intertrabalho, sinergia, simbiose, agenciamento, cooperação, conversar e entender outras pessoas.
  • Diferentes graus e modalidades de interação
  • Tecnologia permite a intensificação da interferência do receptor, aumentando seu participação e dinamicidade do processo.
  • Negociação – importante para o entendimento (conversação)
  • A mediação altera o processo e possibilita mudanças na identidade
  • Interação síncrona e assíncrona
  • Possibilidade de restaurar, alterar, modificar e transfomar.
Dialogismo Bakhtiniano
  • Heteroglossia - interação entre dois fundamentos da comunicação.
  • Diálogo como “luta de signos”,
  • Linguagem dando sentido aos humanos via movimento, diálogo.
  • Contexto tem importância espacial e temporal
Dialogismo Peirceano
  • Signo determinado por algum objeto e a idéia na mente do interpretante
  • Ação do signo ou semiose – processo pelo qual a verdade é revelada, o interpretante em relação ao processo objeto-signo.
  • Modelo: signo é o mediador; conhecimento é mediado, pensamento é dialógico.
  • Ação do signo não é individual e sim social
Pontos comuns
  • B: linguagem é social (extraposição de perguntas e respostas)
  • P: ação do signo é social (rede humana de diálogos)
  • Linguagem é um fluxo constante como o potencializado no ciberespaço
  • Mídia interativa se assemelha a externalizações e objetivações das operações da mente
  • Externalizam a essência do dialogismo